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architectureofdoom:

plagiarismisnecessary:

Jean-Luc Godard
Le Mépris (1963)

Casa Malaparte, Isle of Capri, Adalberto Libera, 1937. View this on the map

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plagiarismisnecessary:

Jean-Luc Godard

Le Mépris (1963)

Casa Malaparte, Isle of Capri, Adalberto Libera, 1937. View this on the map

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.



herberto helder


Swiss Cottage Community Centre, 
c.1960, William Mitchell

Swiss Cottage Community Centre, 

c.1960, William Mitchell

busywire:

Coyote; I like America and America Likes Me (1976)
Joseph Beuys

busywire:

Coyote; I like America and America Likes Me (1976)

Joseph Beuys

há carmim circunscrito ao teu rostocaligem estéril que devoras e esbates e desprezasmão rota esquecida no bolsoópio de palavras frouxas que fogem e sobemcomo héliofirmamento acima

há carmim circunscrito ao teu rosto
caligem estéril que devoras e esbates e desprezas
mão rota esquecida no bolso
ópio de palavras frouxas que fogem e sobem
como hélio
firmamento acima

old school - 2008

old school - 2008

Henry Moore

Henry Moore

Quero um erro de gramática que refaça na metade luminosa o poema do mundo, e que Deus mantenha oculto na metade nocturna o erro do erro: alta voltagem do ouro, bafo no rosto.(herberto helder)
Quero um erro de gramática que refaça
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.

(herberto helder)

la-journee:

Laszlo Moholy-Nagy, 1930

la-journee:

Laszlo Moholy-Nagy, 1930

digo-vos: é mentira o corvo não regressou à arca de noé continuo a voar entre duas águas perdeu-se na travessia do caos e da ordem fascinado pelas líquidas imagens que se desprenderam no infinito dilúvio quando a terra por fim secou o corvo impregnara tudo de treva para que a pomba não encontrasse o ramo de oliveira e deus ao olhar o que nunca fora obra sua mal soube por onde fissurar tanta escuridão vingou-se aprisionando os homens em territórios de abandono e desolaçãoAl Berto

digo-vos: é mentira
o corvo não regressou à arca de noé
continuo a voar entre duas águas
perdeu-se na travessia do caos e da ordem
fascinado pelas líquidas imagens
que se desprenderam no infinito dilúvio

quando a terra por fim secou
o corvo impregnara tudo de treva
para que a pomba não encontrasse o ramo de oliveira
e deus
ao olhar o que nunca fora obra sua
mal soube por onde fissurar tanta escuridão

vingou-se
aprisionando os homens em territórios
de abandono e desolação


Al Berto

dizem que a paixão o conheceumas hoje vive escondido nuns óculos escurossenta-se no estremecer da noite enumerao que lhe sobejou do adolescente rostoturvo pela ligeira náusea da velhiceconhece a solidão de quem permanece acordadoquase sempre estendido ao lado do sonopressente o suave esvoaçar da idadeergue-se para o espelhoque lhe devolve um sorriso tamanho do medodizem que vive na transparência do sonhoà beira-mar envelheceu vagarosamentesem que nenhuma ternura nenhuma alegrianunhum ofício cantanteo tenha convencido a permanecer entre os vivos(al berto)

dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

(al berto)

A PortugalEsta é a ditosa pátria minha amada. Não.Nem é ditosa, porque o não merece.Nem minha amada, porque é só madrasta.Nem pátria minha, porque eu não mereçoA pouca sorte de nascido nela.Nada me prende ou liga a uma baixeza tantaquanto esse arroto de passadas glórias.Amigos meus mais caros tenho nela,saudosamente nela, mas amigos sãopor serem meus amigos, e mais nada.Torpe dejecto de romano império;babugem de invasões; salsugem porcade esgoto atlântico; irrisória facede lama, de cobiça, e de vileza,de mesquinhez, de fatua ignorância;terra de escravos, cu pró ar ouvindoranger no nevoeiro a nau do Encoberto;terra de funcionários e de prostitutas,devotos todos do milagre, castosnas horas vagas de doença oculta;terra de heróis a peso de ouro e sangue,e santos com balcão de secos e molhadosno fundo da virtude; terra tristeà luz do sol calada, arrebicada, pulha,cheia de afáveis para os estrangeirosque deixam moedas e transportam pulgas,oh pulgas lusitanas, pela Europa;terra de monumentos em que o povoassina a merda o seu anonimato;terra-museu em que se vive ainda,com porcos pela rua, em casas celtiberas;terra de poetas tão sentimentaisque o cheiro de um sovaco os põe em transe;terra de pedras esburgadas, secascomo esses sentimentos de oito séculosde roubos e patrões, barões ou condes;ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,és mais que cachorra pelo cio,és peste e fome e guerra e dor de coração.Eu te pertenço mas seres minha, não.(Jorge de Sena)

A Portugal


Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.

(Jorge de Sena)

originalgiantcontent:

Drafting room at Frank Lloyd Wright’s Taliesin West, 1940s.

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Drafting room at Frank Lloyd Wright’s Taliesin West, 1940s.

Sim, meu coração é muito pequeno. Só agora vejo que nele não cabem os homens. Os homens estão cá fora, estão na rua. A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava. Mas também a rua não cabe todos os homens. A rua é menor que o mundo. O mundo é grande.carlos drummond de andrade

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.



carlos drummond de andrade